domingo, 23 de junho de 2024

Voltei!


Como é difícil realizar sonhos. A vida adulta cobra. Precisamos estar produzindo, correndo atrás da máquina. Tudo em busca do nosso sustento. Não vemos os dias, os meses, os anos passarem. Acordamos de manhã, vamos para o trabalho, chegamos à noite, já embaralhados de sono.

Muitas vezes não vemos com delicadeza o crescimento dos nossos filhos. Não curtimos as fases tão belas e marcantes. Estamos cansados. Querendo no máximo assistir uma televisão e tomar algo com teor alcoólico no final de semana.

Estou nesta fase. A dos “quase 40”. Uma fase em que me divido entre profissão, marido, filhas e pai. Uma fase em que as preocupações vêm de todos os lados, inclusive com a minha saúde, após um ganho rápido de vários quilos. Estou nessa fase em que sonhar tem um certo limite, pois o sonho não paga o arroz e feijão, o material escolar que é preciso ser reposto, a gasolina, dentre tantas outras coisas.

Mas como sou uma mulher persistente, estou aqui: sonhando. Não lembro ao certo quando me identifiquei com a escrita. Quando eu era criança tinha um diário que acabou não vingando. Mas na adolescência, no início da fase adulta, a escrita surgiu como um escape deste mundo louco, como uma maneira de lidar com os meus sentimentos, dores e amores. Escrever sempre me acalmava. E eu me enxergo na velhice escrevendo.

Quando eu tinha 25 anos criei um blog, o qual, na época, tinha muitas visualizações. Ali eu exprimia minhas sensações e devaneios. Vivi um ano intenso de escrita, de sonhar em ser uma escritora conhecida, o que não ocorreu. Enquanto algumas pessoas elogiavam, muitas pessoas, sobretudo as mais velhas, davam a entender que este sonho não traria um sustento. No blog eu relatava muitas questões pessoais, o que também acabou causando problemas no relacionamento que eu tinha na época. Então optei por parar. Ou melhor, por colocar na gaveta.

Um ano depois adentrei no mestrado e me encontrei na escrita novamente. No decorrer do curso percebi que a pesquisa acadêmica não traria problemas no meu relacionamento, bem como eu não teria a minha vida pessoal exposta, o que em alguns momentos também me incomodava. Neste trabalho eu realizei uma pesquisa sobre as diferentes manipulações capilares das mulheres negras e foi maravilhoso – embora sempre na busca de um olhar crítico - estudar sobre mim e sobre mulheres parecidas comigo não somente em suas texturas capilares, mas em suas vivências boas, ou não.

No mestrado eu não era criticada por escrever, pois realizar a pós-graduação está aos olhos de muitas pessoas, mais ligada a um sustento do que a escrita em blogs. E foi nesta perspectiva que busquei adentrar em um doutorado, já com o grande sonho – que surgiu neste percurso - de ser professora universitária.

Após várias seleções fui aprovada para cursar o doutorado e hoje posso dizer que os quatros anos de doutoranda foram os mais intensos, profundos e criativos na minha escrita. Minha pesquisa versou sobre os fazeres afro-passistagógicos de mulheres gaúchas, isto é, como as passistas gaúchas ensinavam/transmitiam os seus saberes e fazeres sambistas. Tive um orientador que me deixou muito emancipada e eu compreendi isto com bons olhos. Um amigo certo dia me disse que liberdade é poder e eu nunca esqueci. Voei na escrita. Dancei com as palavras. Li sobre textos do meu interesse. E cheguei a uma média de 330 páginas.

De lá pra cá, adentrei na escola como professora de artes, uma vez que após o doutorado concluí um outro sonho, a licenciatura em dança. Nessa loucura de ser professora, de artes, de dança, de ser mãe, esposa, filha... eu ainda sigo sonhando com a escrita.

E neste momento em que estou com provas para corrigir, trabalhos para avaliar e planejamentos para realizar, eu resolvi tirar um tempo para correr atrás de mais um grande sonho. Este projeto parece um pouco conturbado com tantos afazeres e demandas cotidianas, mas pretendo prosseguir e dou início dizendo que voltei. Tirei o sonho de escrever da gaveta. E quero sorrir e chorar com as palavras até a eternidade.

 

Karen Tolentino

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