Como
é difícil realizar sonhos. A vida adulta cobra. Precisamos estar produzindo,
correndo atrás da máquina. Tudo em busca do nosso sustento. Não vemos os dias,
os meses, os anos passarem. Acordamos de manhã, vamos para o trabalho, chegamos
à noite, já embaralhados de sono.
Muitas
vezes não vemos com delicadeza o crescimento dos nossos filhos. Não curtimos as
fases tão belas e marcantes. Estamos cansados. Querendo no máximo assistir uma
televisão e tomar algo com teor alcoólico no final de semana.
Estou
nesta fase. A dos “quase 40”. Uma fase em que me divido entre profissão,
marido, filhas e pai. Uma fase em que as preocupações vêm de todos os lados,
inclusive com a minha saúde, após um ganho rápido de vários quilos. Estou nessa
fase em que sonhar tem um certo limite, pois o sonho não paga o arroz e feijão,
o material escolar que é preciso ser reposto, a gasolina, dentre tantas outras
coisas.
Mas
como sou uma mulher persistente, estou aqui: sonhando. Não lembro ao certo
quando me identifiquei com a escrita. Quando eu era criança tinha um diário que
acabou não vingando. Mas na adolescência, no início da fase adulta, a escrita
surgiu como um escape deste mundo louco, como uma maneira de lidar com os meus
sentimentos, dores e amores. Escrever sempre me acalmava. E eu me enxergo na
velhice escrevendo.
Quando
eu tinha 25 anos criei um blog, o qual, na época, tinha muitas visualizações.
Ali eu exprimia minhas sensações e devaneios. Vivi um ano intenso de escrita,
de sonhar em ser uma escritora conhecida, o que não ocorreu. Enquanto algumas
pessoas elogiavam, muitas pessoas, sobretudo as mais velhas, davam a entender
que este sonho não traria um sustento. No blog eu relatava muitas questões
pessoais, o que também acabou causando problemas no relacionamento que eu tinha
na época. Então optei por parar. Ou melhor, por colocar na gaveta.
Um
ano depois adentrei no mestrado e me encontrei na escrita novamente. No
decorrer do curso percebi que a pesquisa acadêmica não traria problemas no meu
relacionamento, bem como eu não teria a minha vida pessoal exposta, o que em
alguns momentos também me incomodava. Neste trabalho eu realizei uma pesquisa
sobre as diferentes manipulações capilares das mulheres negras e foi maravilhoso
– embora sempre na busca de um olhar crítico - estudar sobre mim e sobre
mulheres parecidas comigo não somente em suas texturas capilares, mas em suas vivências
boas, ou não.
No
mestrado eu não era criticada por escrever, pois realizar a pós-graduação está
aos olhos de muitas pessoas, mais ligada a um sustento do que a escrita em
blogs. E foi nesta perspectiva que busquei adentrar em um doutorado, já com o
grande sonho – que surgiu neste percurso - de ser professora universitária.
Após
várias seleções fui aprovada para cursar o doutorado e hoje posso dizer que os
quatros anos de doutoranda foram os mais intensos, profundos e criativos na
minha escrita. Minha pesquisa versou sobre os fazeres afro-passistagógicos de
mulheres gaúchas, isto é, como as passistas gaúchas ensinavam/transmitiam os
seus saberes e fazeres sambistas. Tive um orientador que me deixou muito
emancipada e eu compreendi isto com bons olhos. Um amigo certo dia me disse que
liberdade é poder e eu nunca esqueci. Voei na escrita. Dancei com as palavras.
Li sobre textos do meu interesse. E cheguei a uma média de 330 páginas.
De
lá pra cá, adentrei na escola como professora de artes, uma vez que após o
doutorado concluí um outro sonho, a licenciatura em dança. Nessa loucura de ser
professora, de artes, de dança, de ser mãe, esposa, filha... eu ainda sigo
sonhando com a escrita.
E
neste momento em que estou com provas para corrigir, trabalhos para avaliar e
planejamentos para realizar, eu resolvi tirar um tempo para correr atrás de
mais um grande sonho. Este projeto parece um pouco conturbado com tantos
afazeres e demandas cotidianas, mas pretendo prosseguir e dou início dizendo
que voltei. Tirei o sonho de escrever da gaveta. E quero sorrir e chorar com as
palavras até a eternidade.
Karen
Tolentino
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