terça-feira, 15 de novembro de 2016

Ser Passista

Depois que o samba para
O glamour se acaba e maltrata
Purpurinas, maquiagens, cristais e pedestais
Tudo fica na lembrança ou na esperança de viver outra vez...
De ser feliz outra vez, de sonhar outra vez, de ser rainha outra vez...
Ah... Que saudade das tempestades que eu faço no meu samba
No meio de gente preta e bamba
Tsunami, vendaval, raio e trovão
Mulher destaque e de ataque, improviso e poder
Desperta inveja, ciúmes; odiada e adorada
Ser passista é viver em mundos contrários
É entrar e sair do armário
É sorrir e chorar
Dançar e improvisar
É viver num mundo perfeito, mas imperfeito porque nele se esbanjam os preconceitos
Dança negra, preta, da nossa origem
Então por favor, irmãs, não nos aflijam
Não somos só um corpo
Somos corpo, mente, intelecto. Tá tudo unido e conciso
Eu também sou ativista e feminista
E preciso do meu corpo negro sambando
E não sambo pra arranjar namorado ou pra ter mais um tarado do meu lado
Meu sonho é passar num doutorado. Dou-to-ra-do!!!! Entendeu? Percebeu?
Percebeu que eu quero levar minha dança para outros espaços mesmo passando por muitos percalços?
Nos deem as mãos. Nos aplaudam.
A gente dança o som da negrada!
Porque ser passista é esbanjar beleza e alegria ao som de uma bateria
Surdo, caixa, reco-reco, tamborim
E só pra constar... Não é só branco que só quer sexo
É até sem nexo, mas os pretos também. Que desdém
Sofro um horror, por amor, por desamor
Mas vou dançar detentora de alegria e de fantasia sim
Cobrir a minha roupa? Por quê? O quê?
Eu preciso me tapar pra mostrar que não sou “mulher-corpo-objeto”?
A escravidão já é passado ou então tá tudo errado!
Sou resistência. Negritude e inteligência
Não sou mulata. Sou negra
Sambista e, com muito orgulho, Passista!

Karen Tolentino 

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