quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Sou imprevisível

Até eu mesma me surpreendo. Detesto rotina e prêmios de consolação. Eu gosto do brilho. Do colorido. Mas às vezes preciso do fosco, do preto, do branco. Gosto da adrenalina. Do frio na barriga. Discrição não é o meu forte. Mas às vezes necessito ficar quieta no meu canto. Gosto de risada alta, de pular de alegria. Mas a fossa sempre me deixa mais forte. E eu gosto de surpreender. Gosto de refrigerante quase congelado e de café pelando de quente. Só depende do dia. Sou imprevisível. Grito rindo e grito chorando. Eu sou extrema e não há quem me mude. Minha vida é um parque de diversões. E eu arrisco ir nos brinquedos mais radicais. Minha vida é um cinema de comédia, de amor, de drama. E eu sou uma ótima protagonista para todos os estilos. Só não acho graça que a minha vida seja sempre a mesma. Eu sim posso ser a mesma, mas dentro de mim existem várias. Dentro de mim existe uma mulher fraca, outra forte, uma triste, outra alegre, uma persistente, outra desiludida, uma feia, outra bonita. Eu sou um pouco de tudo e gosto disso. Gosto de ter sabores diferentes. Amo ser doce pra quem merece, ser ardente quando quero, ser amarga pra quem não vale a pena. Não sou má, mas também não sou boazinha. Tenho meus picos de maldade. Mas não se assuste: são poucos. Eu sou humana, mas meio objeto, meio bicho. Sou gata, sou leoa, sou cachorro amigo, sou pássaro voando e cantando. Sou edredom macio e cheiroso, sou chave que abre a porta pra liberdade. Adoro desafios. E adoro que me desafiem. O jogo e a peleja me motivam. Eu acho lindo vestido branco, mas também me seduz vestir um vermelho berrante com um decote ousado. Eu sou mais sonho que realidade. Eu sou mais céu que chão. Mas não se engane! Embora sendo um pouco maluca eu tenho cabeça no lugar. Eu não sou tola, eu não sou burra, mas às vezes me faço pra passar bem. Eu sei muito bem com quem ando, muito bem onde piso, sei dos perigos que corro, mas adoro me aventurar. Acho graça no que ainda não tem definição e resposta. No entanto, às vezes preciso de certezas, pois o mundo cobra vida concreta e não abstrata. Essa sou eu. Uma nova velha, uma idosa jovem, sou um sol meio luar, sou o arco-íris que vem depois da chuva, o temporal que vem depois do tempo bom. Sou imprevisível.

Karen Tolentino

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Ser Passista

Depois que o samba para
O glamour se acaba e maltrata
Purpurinas, maquiagens, cristais e pedestais
Tudo fica na lembrança ou na esperança de viver outra vez...
De ser feliz outra vez, de sonhar outra vez, de ser rainha outra vez...
Ah... Que saudade das tempestades que eu faço no meu samba
No meio de gente preta e bamba
Tsunami, vendaval, raio e trovão
Mulher destaque e de ataque, improviso e poder
Desperta inveja, ciúmes; odiada e adorada
Ser passista é viver em mundos contrários
É entrar e sair do armário
É sorrir e chorar
Dançar e improvisar
É viver num mundo perfeito, mas imperfeito porque nele se esbanjam os preconceitos
Dança negra, preta, da nossa origem
Então por favor, irmãs, não nos aflijam
Não somos só um corpo
Somos corpo, mente, intelecto. Tá tudo unido e conciso
Eu também sou ativista e feminista
E preciso do meu corpo negro sambando
E não sambo pra arranjar namorado ou pra ter mais um tarado do meu lado
Meu sonho é passar num doutorado. Dou-to-ra-do!!!! Entendeu? Percebeu?
Percebeu que eu quero levar minha dança para outros espaços mesmo passando por muitos percalços?
Nos deem as mãos. Nos aplaudam.
A gente dança o som da negrada!
Porque ser passista é esbanjar beleza e alegria ao som de uma bateria
Surdo, caixa, reco-reco, tamborim
E só pra constar... Não é só branco que só quer sexo
É até sem nexo, mas os pretos também. Que desdém
Sofro um horror, por amor, por desamor
Mas vou dançar detentora de alegria e de fantasia sim
Cobrir a minha roupa? Por quê? O quê?
Eu preciso me tapar pra mostrar que não sou “mulher-corpo-objeto”?
A escravidão já é passado ou então tá tudo errado!
Sou resistência. Negritude e inteligência
Não sou mulata. Sou negra
Sambista e, com muito orgulho, Passista!

Karen Tolentino